O
significado de escravidão nos dicionários, é muito restrito perto do poder que
o conceito encerra. Nada absolutamente de bom, advém desse poderoso domínio. Estendendo
o conceito de escravidão, o sentido de “submissão” é o que melhor amplifica a noção de
escravidão. É também um conceito atualizado, verdadeiro e praticado com mais ou
com menos força em vias diferentes, posto que há tantas variantes da forma (física,
emocional, financeira, social, emocional, sexual...), mas resultando no mesmo
prejuízo.
Compreender o significado de
escravidão como submissão, nem sempre é cortar os laços das amarras, sobretudo
se essa submissão é uma prática em massa que atinge todo um povo. Eis a forma
mais difícil de se combater a submissão, não somente porque ela seja fruto de
“sedução”, mas porque está intimamente ligada com a negação sistemática de uma
possível culpa. Em suma, é difícil para um ser humano, admitir que é escravo,
porque em paralelo, teria que admitir sua própria culpa da permissividade.
Ninguém deseja declarar publicamente suas supostas culpas.
O princípio que facilita a submissão
de um povo livre, está profundamente enraizado na falta de capacidade desse
mesmo povo antever e interpretar a sedução, enxergar as manobras dessa sedução
e manifestar a reação contrária. Isso aconteceu em eventos religiosos como o
suicídio em massa promovido pela seita de Jim Jones em 1978, em golpes
financeiros como as poderosas jogadas internacionais entre países mais e menos
ricos, em golpes políticos como a criação de estados sociocomunistas. Comum a
todos, a determinante sedução, como mola motriz.
O povo brasileiro não é diferente em
suas reações, porque não se trata de uma formação cultural, mas de essência
inerente ao ser humano. Em palavras simples: Estamos envergonhados (cada um de
nós) de admitir que fomos seduzidos e enganados, então preferimos a negação do
fato. Assim, continuamos presos à zona de conforto.
As reações de nosso povo, são uma
manifestação tímida do desejo de nos desvencilhar da atual situação crítica
política (que desconfiamos preceder a submissão total do povo brasileiro), mas
não nos torna diferentes daqueles que também não reagiram, só porque carregamos
uma bandeira em dias de protestos. Ainda estamos presos à zona de conforto que
a condição humana infelizmente nos permite.
Nunca enfrentamos o inimigo sedução,
de forma tão desarmada como agora. Nunca quebramos correntes tão invisíveis,
nunca assistimos tão desamparados, faltar o chão sob nossos pés. Os prejuízos
são tantos que tem sido melhor não enxergá-los do que lutar contra eles. As
desilusões são tão fortes, as decepções tão ferinas, os golpes desferidos pelo
poder são tão covardes, que ao nos darmos conta da natureza desse poder,
decretamos “perda total” simplesmente, como se esse sinistro pudesse se
resolvido assim.
Não somos aquele povo esperto que
assumimos ser a vida toda, cujo ingrediente “jeitinho” tudo resolvia. Ao
contrário, somos mais ingênuos do que o resto do mundo, porque com um agravante
a mais, alimentamos a ilusão de que somos invencíveis. Assim morreu Narciso à
beira do lago.
Entorpecidos pela incredulidade, não
há o menor sinal de que os brasileiros em sua maioria, nas ruas , nas filas de
bancos, nos ônibus, no trabalho, nos dias comuns de suas vidas, esbocem
qualquer reação de combate ao monstro que já o domina e relega sua condição de
povo a condição de massa de manobra. Como Narciso, ainda estamos olhando para
dentro do lago, num estado letárgico, sem qualquer percepção da atmosfera em
volta. Em pouco tempo estaremos vencidos.
Por: Mônica Torres
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Publicado originalmente em: Gupomoneybr